quinta-feira, 11 de maio de 2017

Uma carta a você, que acabou de me perder.


Oi amor, ou devo dizer ex amor, acho que fica mais apropriado, né?

Estou escrevendo essa carta porque já perdi tempo demais aqui. Essa casa já não parece minha, esses móveis parecem destoar da minha percepção de aconchegante, talvez seja porque esse lugar não é mais meu.

Fiz as malas correndo, talvez sobrem algumas poucas coisas, tudo bem, pode jogar fora ou dá-las a quem quiser, você quem sabe, não preciso mais delas, nem de você.

Agora eu já devo estar bem longe daí, no ônibus, esperando na estação ou até mesmo virando aquela esquina, mas eu precisava ir. Quando a gente percebe que um lugar não é mais nosso a gente não pode ficar, faz mal insistir.

Não foi uma nem duas às vezes que te aceitei de volta, não foram apenas pequenas brigas, não apenas garotas que não significavam nada além de sexo, não era somente uma festa com os amigos, uma ligação não atendida, não.

Não era apenas um aniversario esquecido, uma viagem sem avisar, não foi aquela foto com aquelazinha que teima em te cercar pendurada no seu pescoço, não, não foi só isso.

Não foi culpa daquele vai e vem que era a nossa relação, foi culpa minha mesmo, que acabei por insistir em uma relação que não vingava, que acabei tentando por mil vezes pra que alguma desse certo, foi culta do meu orgulho que gritava "não desista desse jaguara", foi tudo minha culpa, culpa da minha ingenuidade que no fundo acreditava em você, foi isso, fazer o que se na vida eu acabei passando 32 vezes na fila dos trouxas?

Eu sei, também me pergunto porque demorei pra tomar coragem e fazer as malas, porque aceitei tantas idas e vindas calada, talvez eu realmente tenha me esquecido entre as suas coisas, talvez porque você tenha me feito acreditar que eu era mais uma delas, um objeto que a gente tem pena de dar e acaba guardando pra quem sabe um dia usar, mesmo sabendo que esse dia talvez nunca chegue. Talvez tenha sido assim.

Eu realmente tive medo, pensei em como seria minha vida sem você, se eu saberia viver sozinha novamente, mas foi aí que eu percebi que eu já vivia sozinha há algum tempo, e que o mais incrível, lembrei que eu já tive uma vida muito antes de você. Que louco né?

Foi aí que eu percebi que eu estava errada, que eu não era uma coisa, que eu não precisava ficar ali guardada naquela estante esperando que alguém precisasse de mim, percebi que eu não precisava desse amor que você dizia me dar e que eu merecia alguém muito melhor que você. 

PS: Talvez você nem perceba minha ausência nos próximos dias e quando perceber, nem adianta ligar, aproveitei e troquei de número.

Oi amor.

"Oi amor! Sou eu - lembra de mim? - só estou passando pra dizer que estou com saudade!"

Senti vontade de mandar pra ele, por no mínimo algumas 7 vezes, nos últimos 10 minutos.

Pensei em ligar - disquei e apaguei seu número por algumas vezes - e dizer as mil coisas que programei pra quando a gente se encontrasse novamente.

Lembrei de quando eu o abraçava daquele jeito tão apertado, que chegava a trancar a respiração. Sabe?

Pensei em aparecer de surpresa, levar seu vinho favorito e o chamar pra sair sem rumo, como de costume.

Mas e se as coisas não estiverem como deixei?

Pensei em justificar minha ausência com qualquer desculpa esfarrapada.

Contar que estava doente, que a ponte que liga nossas cidades caiu, que fui sequestrada por esse tempo todo, trabalhei na cruz vermelha, fui guia turística na África, me isolei em uma tribo indígena ou qualquer coisa que justificasse minha ausência por esse tempo todo.

Pensei em explicar o motivo da minha partida ou explicar os motivos tão vagos que apressaram a minha chegada.

Mas, não parecia justo voltar.

Afinal, quem vai embora sem dar tchau? Quem diz que ama mas, que precisa ficar longe? Quem tenta se esconder do que sente?

Deixei ele pra trás, como se deixa uma roupa velha, um sapato usado, como se deixa um óculos que não se usa mais. Como pude ser tão egoísta?

Não sei. Só sei que ao voltar, resolvi visitar aquele lugar que a gente adorava, na esperança de encontrar tudo que deixei.

Vesti a minha melhor roupa, arrumei o cabelo do jeito que ele gostava e passei aquele perfume das lembranças.

Entrei na festa - com o coração na mão - e lá estava ele.

Percebi em segundos o efeito daquele sorriso branquinho retornando a minha vida, ele sorria tão maroto.

Fui em direção a ele - levando aquela saudade reprimida e aquela culpa nos olhos - e instantaneamente percebi uma mão que segurava seus ombros largos.

É amigo, nada estava como deixei.

A gente sabe que quando vai embora abre mão de certas coisas, e é egoísmo achar que elas estarão do mesmo jeito que deixou. Mas pensei que...talvez.

Então, dei meia volta - entre borrões na maquiagem com as lágrimas que insistiam em brotar feito as cataratas dos meus olhos - tentei segurar aquela angústia que me tomava o peito, esquecer a razão que gritava que a culpa foi minha e aquele arrependimento de ter voltado tarde demais. 

Não havia nada que poderia ser feito. 

Naquela noite a nossa música não tocou, e a festa acabou ali.

Ela vai casar?

Ela vai casar, tu está entendo? Porque eu não estou entendendo é nada!

Ontem mesmo ela estava aqui, dizendo que ela e ele não tinham nada a ver, que ela gostava de filosofia e tinha até mestrado em direitos fundamentais, ele gostava de festas e não tinha nem terminado o segundo grau, ela era tipo princesa e ele um trágico vagabundo, que ele era chato demais e não aceitava seu jeito, que não gostava das suas amigas e que não aceitava muito bem aquele seu melhor amigo, que eles não dariam certo juntos e que ultimamente ela estava com ele mas, não era mais fiel.

Aí ela chorou, disse que eles eram diferentes demais, que não imaginava com ele um futuro sólido, e que não sabia se conseguiria novamente ficar com ele.

Isso tudo foi ontem, depois de sairmos de mãos dadas daquela festa, enquanto ela estava ali, no meu carro, entre meus braços, pedindo pra me ver novamente amanhã.

Hoje é amanhã, e hoje ela vai casar?

O que ela bebeu ontem? Tinha alguma alma apaixonada por mim no corpo dela ontem? O que foi aquilo? O que eu fiz de errado?

Não, não estou aqui me sentindo usando é muito menos dizendo que queria casar com ela, não, talvez um dia, não sei, mas não agora, não estou aqui pedindo que ela não case, nem lamentando por ter perdido seu amor, coisa que nunca tive, mas você entende o que aconteceu?

Um dia ela decide casar e casa? Com aquele cara que ela disse que não tinha nada a acrescentar na vida dela? Será que ele mudou do dia pra noite? Será que ela tentou esquecer e não conseguiu? Será que ela está fazendo a coisa certa?

Esse foi o assunto do meu amigo hoje, aos gritos, pelo telefone.

Aquela garota havia o deixado confuso, até a mim, confesso. Mas na verdade ela só queria casar.

Não sei por qual motivo, talvez a sociedade havia conseguido, enfim, entrar na cabeça dela e pregar aquela meta, que é um absurdo, talvez a família dela só fale em casamentos, talvez ela se ache velha demais pra começar do zero, talvez ela goste mesmo de sofrer e queira voltar pra aquele relacionamento que todo mundo sabia que não dava certo, ou talvez ela seja mesmo uma "arregona" e tenha medo de fazer o que tem vontade e pra que isso não acontecesse ela iria casar logo de vez, vai saber.

E foi aí que eu disse: Cara, esquece essa garota, você não seria feliz com alguém como ela, quem é que pode ser feliz ao lado de alguém que tem medo de ser quem é? ou pior, quem é que consegue ser feliz ao lado de alguém que é só isso? Quem é que consegue ser feliz ao lado de alguém que tem medo de tentar? 

Ela só queria casar, era o sonho dela, tão pequeno diga-se de passagem, mas não importava com quem fosse, e isso é tão pouco.

Não foi culpa sua, foi melhor assim, afinal vocês não dariam certo juntos, por acreditar, você com esse jeito de ser tão seu, você que busca a realização dos mais pequenos sonhos independente do que pensem sobre eles, você que acredita que a vida é esse presente todos que temos a cada dia e que o mínimo que podemos fazer é agradecer e aproveitá-la sendo e fazendo alguém feliz, nunca daria só isso a ela e ela não precisava de mais.

Não é que eu te esqueci, eu te saquei.


      (imagem retirada do google, caso ela seja sua, por favor informe para créditos)

Graças a Deus, um salve aqui pra quem abriu os olhos, mesmo que pequenos, mesmo que a claridade nesses meus olhos azuis, teimasse em mantê-los fechados, um salve pra quem colocou um óculos de sol e então criou coragem pra abrir bem esses olhos, lindos por sinal, e acabar por ver o que estava o tempo todo diante deles.

Doeu? Talvez um pouco, dói mesmo, mas um dia ou outro isso iria acontecer,  e antes tarde do que mais tarde, minha filha!


Não é questão de esquecer, a questão toda é que lembrar já não era uma opção, não das melhores.


É difícil mesmo perceber que a gente mantém ilusões por capricho, por medo, até por amor unilateral, esse mesmo que todo mundo tem, já teve ou terá, o famoso "gostar de quem não gosta da gente". Parece um dos mandamentos da vida, tipo: nascer, crescer, gostar de quem não gosta da gente e morrer. Que?


É vazio quando não é recíproco, mas às vezes a gente fica lá, ocupando o lugar sozinha, tem gente que é espaçosa mesmo, se contentando com respostas rápidas no MSN, com lembranças bobas em tirinhas engraçadas enviadas pelo whats, em beijos roubados depois de umas e outras, afinal tem gente que bebe e beija até por desconto em cerveja, né? Aí a gente vai preenchendo esse vazio ilusório de qualquer coisa e vai ficando.


Os amigos casam, separam, vão embora, partem para outra, tem filhos e família, viajam, se divertem, deixam tudo e começam de novo, e você fica ali, empacada feito uma mula em um amor que não vinga, não rola, não vai dar.


É aí que a gente saca, é aí que a gente se saca de verdade e vê tudo que não fez, isso mesmo, a gente mais não fez do que fez, a gente não foi viajar, não saiu com o carinha da locadora, não foi fazer aquela prova para a nova pós graduação, não fez um intercâmbio, não foi no jogo de futebol, não foi naquela festa que bombou, a gente nem viveu direito nesse último ano porque ficou esperando, esperando e esperando.


A vida passou por aqui, por lá, ela não estacionou até que a gente decidisse se seguiria em frente ou se ficaria, e aí a gente ficou, ficou aqui engordando, lembrando, esperando que ele percebesse o quanto éramos feitos um para o outro, e o tempo passou, na verdade a gente nunca quis esquecer, porque acreditava, acreditava pra caramba, ate em fada do dente e Papai Noel, até que a gente sacou, sacou que não adiantava um amor unilateral.

Graças a Deus! Uma luz divina finalmente iluminou aqui heim? Foi aí que eu percebi, que você percebeu, que a galera toda desse barco - que não é um iate e sim um barquinho feito de garrafa pet - o quanto perdeu tempo, oportunidades, sorrisos, abraços a gente perdeu insistindo no outro e desistindo da gente. E isso não estava certo, não. Foi aí que saquei.